Diferentes escolas de psicoterapia utilizam métodos, conceitos e técnicas próprios. Algumas trabalham principalmente com a fala e a interpretação; outras valorizam as emoções, o corpo, o comportamento ou a relação estabelecida entre terapeuta e paciente.
Apesar dessas diferenças, existe uma questão que pode aproximar muitas dessas abordagens: o que significa, de fato, solucionar um problema?
Essa foi uma das questões apresentadas pelo psicoterapeuta Jorge Stolkiner em uma conferência realizada em 30 de março de 2016, na Clínica Horizonte Desenvolvimento Humano, em Recife. A conferência foi traduzida e transcrita por Fernando Palhano. Markdown colado
A partir dessa perspectiva, Stolkiner propõe uma reflexão sobre o processo terapêutico e sobre alguns elementos que podem estar presentes em diferentes formas de psicoterapia: a abertura do problema, o contato com a experiência, a compreensão, a interrupção de determinados padrões e, por fim, a possibilidade de liberar aquilo que mantém o sofrimento.
Uma orientação pragmática para compreender os problemas
A proposta apresentada por Stolkiner parte de uma orientação pragmática. Isso significa olhar para o problema não apenas a partir de sua definição teórica, mas também considerando como ele se manifesta e o que acontece quando a pessoa entra em contato com ele.
Um problema pode aparecer de diferentes formas. Pode estar relacionado a uma situação concreta, a uma relação, a uma perda, a um medo ou a um sofrimento emocional.
Também pode envolver pensamentos, comportamentos, emoções e manifestações corporais.
Por isso, compreender um problema não significa necessariamente encontrar uma explicação única para sua origem. O processo terapêutico pode envolver diferentes caminhos para que a pessoa reconheça aquilo que está acontecendo e possa estabelecer uma relação diferente com essa experiência.
Dois tipos de problemas
Na conferência, Stolkiner diferencia situações que podem ser resolvidas por meio de uma ação concreta daquelas que envolvem uma experiência subjetiva mais complexa.
Alguns problemas possuem uma solução relativamente direta. Quando existe um obstáculo externo, por exemplo, pode ser possível modificar uma circunstância, tomar uma decisão ou realizar determinada ação.
Outros problemas, porém, não desaparecem simplesmente porque a pessoa encontrou uma explicação ou decidiu fazer alguma coisa.
O sofrimento relacionado a uma perda é um exemplo. A morte de alguém não pode ser desfeita. Nesse caso, o trabalho não consiste em modificar o acontecimento, mas em entrar em contato com a experiência e atravessar o processo que ela desencadeia.
Essa diferença ajuda a compreender por que diferentes formas de psicoterapia podem utilizar caminhos distintos para trabalhar com problemas emocionais.
A diversidade das escolas de psicoterapia
A psicoterapia reúne diversas escolas e abordagens. Cada uma desenvolveu conceitos e métodos próprios para compreender e trabalhar com o sofrimento humano.
Existem abordagens que enfatizam a história pessoal, outras que trabalham com pensamentos e comportamentos, enquanto algumas dão maior importância às emoções, às relações ou às manifestações corporais.
Diante dessa diversidade, surge uma pergunta apresentada na conferência: será que existe algo em comum entre todas essas formas de terapia?
Para Stolkiner, a resposta pode ser encontrada no próprio processo de resolução dos problemas.
Porém, mais do que procurar uma técnica universal, a proposta é observar o que acontece quando uma pessoa se aproxima verdadeiramente daquilo que está vivendo.
O que significa solucionar um problema?
Solucionar um problema não significa necessariamente fazer com que determinada situação desapareça.
Em algumas experiências, principalmente quando não é possível modificar o acontecimento que originou o sofrimento, solucionar pode significar mudar a relação da pessoa com aquilo que aconteceu.
O problema deixa de ocupar o mesmo lugar quando a pessoa consegue entrar em contato com a experiência, compreendê-la e deixar de alimentar determinados mecanismos que a mantêm presa àquela situação.
Essa perspectiva também permite compreender por que simplesmente falar sobre um problema nem sempre produz uma mudança.
É possível conhecer intelectualmente uma situação e, ainda assim, continuar emocionalmente ligado a ela.
Emoções, pensamentos, comportamentos e corpo
Outro ponto importante apresentado por Stolkiner é a conexão entre diferentes dimensões da experiência humana.
Emoções, pensamentos, comportamentos e fenômenos corporais não aparecem necessariamente como acontecimentos isolados.
Uma situação pode provocar uma emoção. Essa emoção pode modificar a maneira como a pessoa pensa e age. Ao mesmo tempo, o corpo pode expressar aquilo que está sendo vivido por meio da respiração, da postura, da tensão muscular ou de outras manifestações.
Essa compreensão é especialmente importante para as terapias que trabalham diretamente com o corpo.
Na perspectiva apresentada na conferência, olhar para o fenômeno corporal pode fazer parte do caminho para compreender aquilo que acontece emocionalmente.
As etapas para a resolução de um problema
Stolkiner apresenta um processo composto por diferentes momentos. Eles não devem ser entendidos necessariamente como uma fórmula rígida, mas como elementos que ajudam a compreender o caminho de transformação de uma experiência problemática.
Entre esses elementos estão a abertura do problema, o contato, a compreensão da vacuidade, o não fazer e a liberação do problema.
1. Abertura do problema
O primeiro movimento consiste em abrir o problema.
Quando uma pessoa sofre, é comum que tente rapidamente se afastar daquilo que provoca desconforto. Pode evitar determinados pensamentos, situações ou emoções.
Porém, para trabalhar terapeuticamente uma experiência, pode ser necessário permitir que ela se manifeste.
O exemplo do luto ajuda a compreender essa ideia.
Uma perda produz uma experiência que não pode simplesmente ser eliminada. A pessoa precisa encontrar uma maneira de entrar em contato com aquilo que aconteceu e atravessar o processo emocional relacionado à perda.
Diferentes métodos psicoterapêuticos podem utilizar caminhos distintos para essa abertura.
Na psicanálise, por exemplo, a fala e a associação podem desempenhar esse papel. Nas terapias corporais, a atenção às sensações, à respiração e às manifestações do corpo pode contribuir para que a experiência seja percebida de outra maneira.
Stolkiner também menciona práticas relacionadas ao silêncio e ao isolamento presentes em determinadas tradições terapêuticas japonesas.
Apesar das diferenças, existe um ponto em comum: abrir o problema significa criar espaço para que aquilo que estava fechado ou evitado possa aparecer.
2. O contato
Depois da abertura, aparece outro elemento fundamental: o contato.
Para Stolkiner, simplesmente provocar uma descarga emocional não significa necessariamente solucionar o problema.
A catarse, por si só, não seria suficiente.
O contato envolve algo mais amplo: estar diante da experiência, percebê-la e reconhecê-la.
Isso inclui sentir e, ao mesmo tempo, saber que se está sentindo.
No caso do luto, por exemplo, entrar em contato não significa apenas chorar. Significa reconhecer a perda, permitir que as emoções relacionadas a ela apareçam e estabelecer uma relação consciente com essa experiência.
Diferentes terapias podem criar condições para esse contato por meio de técnicas distintas.
O contato com o corpo e com as emoções
Nas terapias corporais, o contato também pode acontecer por meio da percepção do próprio corpo.
Uma tensão muscular, uma alteração na respiração, uma postura ou determinada sensação podem acompanhar uma experiência emocional.
Ao prestar atenção a esses fenômenos, a pessoa pode perceber aspectos da experiência que anteriormente passavam despercebidos.
Essa relação entre corpo e emoção aparece como um dos pontos importantes da abordagem discutida na conferência.
O corpo não é apresentado apenas como algo separado da experiência psicológica, mas como uma dimensão que pode participar da expressão e da percepção das emoções.
3. A compreensão da vacuidade
Outro momento apresentado por Stolkiner é aquilo que ele denomina compreensão da vacuidade, relacionada à ideia de não realidade.
Esse conceito está ligado à percepção de que o problema pode parecer absolutamente real e permanente enquanto a pessoa permanece presa à experiência.
A questão, nesse caso, não consiste em negar aquilo que aconteceu ou dizer que o sofrimento não existe.
Trata-se de perceber que a forma como a pessoa se relaciona com o problema também participa da manutenção da experiência.
Segundo a perspectiva apresentada na conferência, esse princípio pode estar presente, de maneiras diferentes, em diversas formas de psicoterapia.
4. O não fazer
O quarto elemento é o não fazer.
A ideia pode parecer contraditória. Afinal, se alguém está diante de um problema, não deveria fazer alguma coisa para resolvê-lo?
A proposta apresentada por Stolkiner é justamente questionar essa necessidade permanente de agir sobre o problema.
Em determinadas situações, a tentativa constante de controlar, combater ou modificar uma experiência pode acabar mantendo o próprio problema.
Nesse sentido, o não fazer não significa passividade diante da vida.
Significa interromper determinadas ações que alimentam o ciclo do sofrimento.
Às vezes, o processo terapêutico envolve perceber que aquilo que a pessoa está fazendo para escapar de determinado problema também contribui para mantê-lo presente.
5. A liberação do problema
O último movimento apresentado é a liberação do problema.
Nesse momento, a experiência deixa de ocupar o mesmo lugar na vida da pessoa.
O problema pode deixar de ser apenas uma fonte de sofrimento e passar a representar uma possibilidade de transformação ou desenvolvimento de novas capacidades.
A liberação também está relacionada ao desapego.
Enquanto a pessoa permanece profundamente vinculada à necessidade de controlar, evitar ou modificar determinada experiência, ela continua presa a ela.
Por isso, uma das dificuldades apontadas por Stolkiner está justamente na capacidade de deixar ir.
Por que é tão difícil liberar um problema?
Uma das questões levantadas na conferência é que, muitas vezes, a pessoa pode se acostumar com o próprio problema.
Mesmo quando determinada experiência provoca sofrimento, ela pode se tornar conhecida e previsível.
O problema passa a fazer parte da identidade, da rotina ou da maneira como a pessoa compreende sua própria história.
Por isso, abandonar determinada forma de funcionamento pode provocar insegurança.
A dificuldade não está necessariamente apenas em compreender intelectualmente que uma mudança é necessária. É preciso também estabelecer uma nova relação com aquilo que antes organizava a experiência.
O problema pode se transformar em capacidade
Dentro da perspectiva apresentada por Stolkiner, a resolução de um problema não precisa significar simplesmente voltar ao estado anterior à dificuldade.
A experiência pode produzir uma transformação.
Aquilo que inicialmente aparece como sofrimento pode, depois de trabalhado, contribuir para o desenvolvimento de novas possibilidades.
Isso não significa romantizar o sofrimento ou afirmar que toda experiência difícil necessariamente produz crescimento.
A ideia apresentada na conferência é outra: quando o problema deixa de controlar a experiência da pessoa, pode surgir espaço para novas formas de funcionamento.
O que diferentes terapias podem ter em comum?
As escolas de psicoterapia são diferentes. Seus conceitos, técnicas e formas de compreender o sofrimento também podem ser diferentes.
Ainda assim, a conferência de Jorge Stolkiner propõe observar alguns movimentos que podem aparecer em diferentes processos terapêuticos:
- abertura para aquilo que está acontecendo;
- contato com a experiência;
- compreensão;
- interrupção de padrões que mantêm o problema;
- liberação e mudança na relação com a experiência.
Esses elementos não significam que todas as terapias funcionem da mesma maneira.
Eles representam uma reflexão sobre possíveis pontos de aproximação entre diferentes caminhos terapêuticos.
Psicoterapia e resolução de problemas
A partir dessa perspectiva, a psicoterapia pode ser compreendida não apenas como um espaço para falar sobre problemas, mas como um processo no qual a pessoa pode se aproximar de experiências que antes eram evitadas ou vividas de maneira automática.
O trabalho pode envolver pensamentos, emoções, comportamentos, relações e, em determinadas abordagens, também o corpo.
Na psicoterapia corporal, essa atenção ao corpo ocupa um lugar importante. Sensações, respiração, postura e tensões podem fazer parte da experiência que está sendo trabalhada.
Assim, compreender o problema envolve também perceber como ele aparece na experiência concreta da pessoa.
Conclusão
A pergunta sobre o que diferentes terapias têm em comum não possui uma resposta simples.
Cada abordagem psicoterapêutica possui sua própria história, seus conceitos e seus métodos.
Na conferência apresentada por Jorge Stolkiner, entretanto, aparece uma possibilidade de compreender o processo terapêutico a partir de alguns movimentos fundamentais: abrir o problema, estabelecer contato com a experiência, compreender, interromper aquilo que mantém o sofrimento e possibilitar uma liberação.
Essa perspectiva coloca o contato no centro do processo.
Em vez de simplesmente eliminar aquilo que incomoda, o trabalho terapêutico pode envolver uma aproximação cuidadosa da experiência, permitindo que a pessoa perceba o que acontece consigo e encontre novas possibilidades de relação com aquilo que vive.
É nesse sentido que diferentes caminhos psicoterapêuticos podem apresentar pontos de aproximação, mesmo quando utilizam técnicas e conceitos bastante diferentes.

